Hora de ponta, telemóvel na mão, a correr para o comboio - e isso já conta como exercício?
Um novo estudo vem abalar este mito do quotidiano.
Muitos ainda acreditam que bastam alguns trajectos curtos entre a secretária, a máquina de café e o supermercado. Mas investigadores britânicos olharam mais de perto: quanto - e, sobretudo, durante quanto tempo - é preciso caminhar para o coração beneficiar de forma mensurável, mesmo para quem passa o dia sentado?
O que o estudo mostra realmente
A investigação decorreu no Reino Unido ao longo de oito anos. Participaram 33.560 adultos com idades entre os 40 e os 79 anos. Todos usaram pedómetros, permitindo aos investigadores acompanhar com grande precisão quanto se movimentavam no dia a dia.
O factor decisivo não foi apenas o número de passos, mas também o tempo que as pessoas passavam efectivamente a caminhar - desde menos de cinco minutos por dia até mais de 15 minutos.
Quem caminhava durante mais tempo e com regularidade tinha um risco significativamente menor de doença cardíaca e de morte prematura - independentemente do nível inicial de condição física.
A análise mostra: mesmo entre pessoas globalmente pouco activas (menos de 5.000 passos por dia), o risco de doenças cardiovasculares diminuiu de forma perceptível assim que aumentaram o tempo diário de caminhada. Os famosos 10.000 passos, aqui, não tiveram o papel principal.
O mito dos 10.000 passos
A marca dos “10.000 passos” já é quase um mandamento de saúde. No entanto, nasceu como slogan de marketing de um pedómetro japonês dos anos 60 - não de um manual médico.
O estudo britânico reorienta a discussão: trata-se menos de um número mágico e mais de uma faixa em que o corpo beneficia claramente.
- A partir de cerca de 8.000 passos por dia, o risco de doença cardíaca baixa de forma notória.
- Efeito adicional: quem prolonga o tempo de caminhada ganha benefícios mesmo com menos passos.
- O que conta é a regularidade, não o “passeio heróico” de domingo.
Cerca de 8.000 passos diários surgem nesta análise como um nível útil e realisticamente atingível para melhor protecção cardiovascular.
Porque a duração das caminhadas é tão decisiva
Os investigadores dividiram os participantes por tempo diário de caminhada - de muito curto até mais de 15 minutos. Resultado: quanto mais longas as fases de caminhada diárias, menor o risco de vir a ter problemas cardíacos ou de morrer prematuramente.
Ponto importante: a análise considerou factores como tabagismo, excesso de peso, níveis de colesterol e condição física de base. Ainda assim, a relação entre caminhar mais tempo e melhor saúde do coração manteve-se.
Mesmo 10 a 15 minutos fazem diferença
O co-autor Emmanuel Stamatakis sublinha que até pessoas muito inactivas beneficiam com ajustes mínimos nos hábitos. Apenas 10 a 15 minutos por dia de caminhada rápida podem ter um efeito claro - e não é preciso esperar pela reforma.
Isto aproxima-se também das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que aconselha pelo menos 150 minutos semanais de actividade física de intensidade moderada. Quem caminha a bom ritmo 30 minutos, cinco vezes por semana, cumpre essa meta - mas até pequenos passos nessa direcção já compensam.
| Volume de caminhada | Exemplos do dia a dia | Interpretação para o coração |
|---|---|---|
| Menos de 5 min/dia | Apenas casa – carro – escritório | Elevada carga para o coração, quase sem alívio |
| 10–15 min/dia | Uma caminhada curta e consciente | Primeira redução perceptível do risco |
| Cerca de 8.000 passos | Escadas, trajecto para o trabalho, passeio médio | Risco claramente menor de doença cardíaca |
| Mais de 10.000 passos | Percursos mais longos, actividade de lazer | Benefício adicional, mas não “mágico” |
Como “contrabandear” mais tempo de caminhada num dia cheio
A recomendação parece simples: caminhar mais. Num quotidiano stressante, isso muitas vezes soa irrealista. Muita gente passa oito horas sentada no escritório, vai de carro e chega ao fim do dia exausta.
Para aliviar o coração, não é preciso tornar-se maratonista. Ajuda ter uma visão pragmática do dia:
- Sair uma paragem mais cedo do autocarro ou metro e fazer o resto a passo rápido.
- Fazer telefonemas, quando possível, a caminhar em vez de ficar colado à cadeira.
- Usar a pausa de almoço para uma volta de 10 minutos ao quarteirão.
- Preferir sistematicamente as escadas ao elevador, sobretudo entre um e três andares.
- Rotina da noite: planear uma volta curta e fixa ao quarteirão.
Pequenos rituais consistentes fazem mais pelo coração do que “explosões” de desporto irregulares com longas pausas pelo meio.
O que “caminhar a bom ritmo” significa do ponto de vista médico
Muitos perguntam: estarei a andar rápido o suficiente para o meu coração reagir - pela positiva, não pela negativa? Os médicos falam em “intensidade moderada” quando a pulsação sobe, ficamos ligeiramente ofegantes, mas ainda conseguimos falar.
Uma regra prática para o dia a dia:
- Dá para falar em frases completas.
- Poderia cantar, mas não apetece.
- A respiração está mais rápida, mas não ofegante nem descontrolada.
Para pessoas com problemas de saúde ou após eventos cardíacos: antes de alterar hábitos, falar sempre com a médica de família ou cardiologista, especialmente se já toma medicação para a tensão arterial ou para o ritmo cardíaco.
Quem beneficia mais?
Um ponto interessante desta análise britânica: precisamente as pessoas com o nível mais baixo de actividade obtiveram, proporcionalmente, mais ganhos quando aumentaram ligeiramente o tempo de caminhada. Ou seja, o primeiro degrau para cima dá um salto maior na redução do risco.
Exemplo: quem passa de quase nenhuma actividade para 10 minutos diários de caminhada rápida reduz mais a carga para o coração do que alguém que passa de 9.000 para 11.000 passos.
Para o coração, o salto de “quase não me mexo” para “um pouco, mas todos os dias” conta mais do que o polimento fino no ginásio.
Riscos típicos - e como limitá-los
Caminhar é considerado uma actividade segura, mas há armadilhas. Pessoas com problemas articulares, obesidade marcada ou doenças prévias devem começar devagar. O corpo precisa de tempo para se adaptar à nova carga.
- Articulações: aumentar gradualmente, usar bom calçado, escolher piso mais macio, fazer pausas.
- Cardiovascular: se surgir dor no peito, falta de ar intensa, tonturas ou palpitações, parar de imediato e procurar avaliação médica.
- Motivação: definir metas realistas - por exemplo, começar com três dias por semana, em vez de planear logo 45 minutos diários.
Quem se sentir inseguro pode começar com intervalos curtos: dois minutos a andar, um minuto mais devagar, e voltar a aumentar. Assim, percebe cedo como o corpo reage.
Como combinar caminhada com outras actividades
Caminhar, por si só, já traz efeitos claros para o coração. Em combinação com outros movimentos suaves, cria-se um pacote forte para a saúde cardiovascular.
Boas opções complementares incluem:
- Bicicleta, para quem sente dificuldade em caminhar muito tempo em piso duro.
- Natação ou hidroginástica, para aliviar as articulações e ainda assim desafiar o coração.
- Treino de força leve, por exemplo com o peso do próprio corpo, para ganhar massa muscular e melhorar o metabolismo.
Se não quiser fazer tudo de uma vez, pode alternar semanalmente: dois dias com caminhadas conscientes, um dia de bicicleta ou natação, e depois voltar à caminhada. O essencial é que o coração receba regularmente o estímulo de trabalhar um pouco mais do que no banco do escritório.
Um cenário realista para o quotidiano
Um funcionário de escritório de 52 anos, com tensão arterial ligeiramente elevada, mal consegue 4.000 passos por dia no início. Introduz elementos simples na semana: três caminhadas de pausa de almoço de 12 minutos, mais duas voltas curtas à noite pelo bairro.
Ao fim de algumas semanas, chega a cerca de 7.000 a 8.000 passos, sem virar a vida do avesso. A tensão arterial estabiliza, sente-se menos cansado, dorme melhor - e, estatisticamente, reduziu de forma perceptível o risco de doenças cardiovasculares.
Não é o plano de treino perfeito que faz a diferença, mas a caminhada regular, ligeiramente rápida - todos os dias, um pouco mais do que ontem.
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