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Frases comuns usadas por adultos mais velhos podem, sem querer, bloquear o diálogo com os mais jovens.

Duas pessoas à mesa, uma segura um cartão que diz "closed". Chá e laranjas em cima da mesa.

O café estava barulhento, mas o silêncio à mesa era mais ensurdecedor.
Uma avó acabara de dizer ao neto de 17 anos: “Quando eu tinha a tua idade, não nos queixávamos tanto. Simplesmente seguíamos em frente.” Ele mexeu a bebida, olhou para o telemóvel e a conversa morreu ali mesmo. Nada de dramático, sem gritos. Apenas uma parede invisível a descer entre os dois.

Mais tarde, a avó suspirou: “Ele já não fala comigo.”
Ele disse a um amigo: “Para quê? Ela já decidiu que eu estou errado.”

Essa pausa silenciosa e pesada acontece todos os dias nas famílias.
Muitas vezes começa com uma frase familiar.

Quando frases familiares fecham uma porta em silêncio

A maioria dos adultos mais velhos não acorda a pensar: “Como é que posso calar os meus netos hoje?”
Falam por hábito, pela forma como foram educados, pelo que resultava há quarenta anos. Do lado deles, as frases parecem normais, até carinhosas.

Mas, do lado de uma pessoa mais nova, essas mesmas linhas podem soar a sentença.
Não a convite.

“Quando eu tinha a tua idade…”
“És demasiado sensível.”
“Os miúdos de hoje não sabem a sorte que têm.”

Três frases pequenas e, de repente, a energia na sala escoa-se.

Vejamos a Maya, 23 anos, a dizer ao pai que está esmagada pelo trabalho e pela renda.
Ele ama-a, está preocupado, quer que ela ganhe “estaleca”. Por isso responde: “Na tua idade, eu já tinha dois empregos e um bebé. Achas que tens problemas?”

Ela pára a meio da frase. Os ombros ficam tensos. Ri educadamente e muda o assunto para algo seguro, como uma série de televisão.
Mais tarde, diz à colega de casa: “Eu só precisava que ele me ouvisse, não que comparasse sofrimento.”

É assim que muitas vezes acontece. Não com grandes discussões, mas com pequenos afastamentos.
Cada frase, dita de leve por uma geração, cai como uma pedra na outra.

Há uma razão simples para estas frases doerem: desviam o foco da pessoa nova e voltam a pôr o holofote na pessoa mais velha.
Em vez de “Conta-me mais”, a mensagem escondida passa a ser: “Deixa-me explicar porque é que estás errado, ou és mais fraco, ou mimado.”

Linguagem como “Estás a exagerar”, “Vais perceber quando fores mais velho”, ou “Vocês, jovens…” põe a pessoa nova numa caixa.
Uma caixa com a etiqueta: “Ainda não é válido.”

Quando alguém sente que a sua experiência está a ser julgada, deixa de a partilhar.
Não porque seja frágil. Porque ninguém gosta de ter de “provar” que merece respeito básico.

Trocar frases que fecham por frases que abrem

Há uma pequena mudança prática que altera tudo: passar do julgamento para a curiosidade ao nomear.
Em vez de “Os miúdos de hoje estão viciados no telemóvel”, um adulto mais velho pode tentar: “Os ecrãs são uma parte enorme da tua vida. O que é que gostas nisso, e o que é que te irrita?”

Isto não significa engolir todas as opiniões ou fingir concordar.
Significa começar com interesse, não com lição.

Um método simples: quando uma pessoa mais nova partilha algo, responder com uma frase de validação antes de qualquer conselho.
“Percebo que isto está a ser pesado para ti.”
“Uau, isso soa mesmo entusiasmante.”
E depois, só depois, perguntar se ela quer ouvir a tua opinião.

Um erro comum dos adultos mais velhos é saltar logo para o “modo de resolução”.
O problema não é a sabedoria. É o timing.

Um adolescente abre-se uma vez, leva com um sermão instantâneo, e decide em silêncio: “Não volto a fazer isto.”
Não porque o conselho seja mau, mas porque atropelou aquele momento frágil de confiança.

Sejamos honestos: ninguém consegue fazer isto todos os dias, sem falhar.
Todos escorregamos para o “Quando eu era jovem…” ou “Tu devias…” quando estamos cansados ou com medo.

O que importa é reparar no padrão.
E ter a coragem de dizer: “Espera, deixa-me tentar outra vez.”

Adultos mais velhos dizem-me muitas vezes: “Sinto que ando a pisar ovos; já não sei o que é que posso dizer.”
A resposta não é o silêncio. É mudar de veredictos para perguntas.

  • “Quando eu tinha a tua idade…” → “Como é que é ter a tua idade agora?”
  • “És demasiado sensível.” → “Isto mexe mesmo contigo. Queres dizer-me porquê?”
  • “Não sabes a sorte que tens.” → “Às vezes olho para o teu mundo e penso: uau, é tão diferente do meu. Como é que isso se sente por dentro?”
  • “Vais perceber quando fores mais velho.” → “Há partes disto que eu vejo de forma diferente. Queres ouvir a minha perspetiva, ou só precisas que eu te ouça?”
  • “Isso não é um problema a sério.” → “Posso não perceber totalmente, mas é real para ti. Ajuda-me a entender.”

Isto não são guiões para decorar.
São pequenos abre-portas, sinais minúsculos que dizem: “A tua realidade conta nesta sala.”

Manter a conversa viva entre gerações

Imagina o que mudaria se, da próxima vez que uma pessoa mais nova revirasse os olhos, um adulto mais velho não respondesse com “Que falta de respeito”, mas com: “Ok, estou a ver que te perdi aí. O que é que eu disse que não caiu bem?”
Essa pergunta não garante um abraço caloroso e harmonia perfeita.
Mas trava a espiral habitual de mágoa e recuo.

O diálogo entre gerações não é uma checklist organizada que se faz uma vez e está feito.
É confuso, repetitivo, cheio de palpites errados e pequenas correções de rota.

As frases que fecham tudo são muitas vezes as que mal damos conta de sair-nos da boca.
As frases que abrem tudo parecem estranhas ao início, como falar uma nova língua com um rosto familiar.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Reparar em frases que fecham Identificar expressões como “Quando eu tinha a tua idade…” ou “És demasiado sensível” como sinais de alerta Dá-te um “radar” para detetar a desconexão antes de endurecer em distância
Começar por validar Oferecer uma frase de reconhecimento antes de aconselhar ou comparar Faz com que os mais novos se sintam ouvidos, o que os mantém a falar
Trocar veredictos por perguntas Substituir julgamentos por perguntas curiosas e específicas sobre o mundo deles Constrói confiança e cria espaço para conversas reais, de mão dupla

FAQ:

  • Pergunta 1 Quais são outras frases comuns que calam os jovens?
  • Resposta 1 Coisas como “É assim que o mundo funciona”, “Estás a pensar demais”, “Deixa-te de dramas”, “Adultos a sério não falam assim”, ou “No meu tempo respeitávamos os mais velhos” muitas vezes parecem uma porta a bater na cara da pessoa mais nova. Sinalizam que a conversa está encerrada e que a hierarquia é fixa.
  • Pergunta 2 O que pode um adulto mais velho dizer em vez de “Quando eu tinha a tua idade”?
  • Resposta 2 Experimenta: “O que estás a dizer faz-me lembrar um pouco como eu me sentia na tua idade, mas o teu mundo é diferente. O que é que é mais difícil para ti neste momento?” Assim, trazes a tua história sem a usares para anular a deles. Passa a ser uma ponte, não uma arma.
  • Pergunta 3 Como pode uma pessoa mais nova responder quando ouve uma destas frases?
  • Resposta 3 Uma opção suave é: “Quando dizes isso, eu sinto que o meu lado não conta assim tanto. Posso dizer-te como é para mim?” Nem sempre vai resultar, mas é um sinal claro e respeitoso de que estás a pedir diálogo, não uma lição.
  • Pergunta 4 E se um adulto mais velho acredita genuinamente que os jovens são demasiado sensíveis?
  • Resposta 4 Pode manter essa crença e, ainda assim, continuar curioso. Pode dizer: “Eu cresci com uma ideia muito diferente de dureza. Estou a tentar compreender a tua forma. Podes guiar-me sobre como isto se sente para ti?” Isso mantém a relação maior do que a opinião.
  • Pergunta 5 Pequenas mudanças na linguagem podem mesmo reparar distância de longo prazo?
  • Resposta 5 Não de um dia para o outro, e não por magia. Mas momentos repetidos de ser ouvido reescrevem lentamente a história entre gerações. Muitas pessoas dizem que uma única frase inesperada, como “Ajuda-me a entender”, foi a primeira fenda de luz em anos de silêncio.

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