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O continente africano está a dividir-se gradualmente, um processo já detetado por satélites.

Cientista analisando fissura no solo com tablet e mapa, em ambiente desértico com árvores e casas ao fundo.

Am lado de um caminho de terra poeirento no Quénia, parei porque o chão sob os meus pés soava diferente. Um estalido surdo, como se, muito lá em baixo, alguém estivesse a abrir lentamente um livro antiquíssimo. O horizonte tremeluzia com o calor; crianças brincavam ao lado de uma fissura recente no solo, mal mais larga do que uma mão, e riam como se fosse apenas mais um obstáculo no jogo da bola. Um velho agricultor, ao lado, abanou a cabeça e disse em voz baixa: “O chão já não é como antigamente.”

Nesse dia vi, pela primeira vez, aquilo que os geólogos mostram há anos em gráficos sóbrios: o continente africano está a começar a separar-se. Não num filme, não daqui a milhões de anos num lugar distante - mas agora, visível, mensurável, observado por satélites.

E, de repente, essa fissura no chão deixa de parecer inofensiva.

Um continente que estala de forma audível

Quem já esteve no Grande Vale do Rift Africano sente-o de imediato: este continente está em movimento. O ar parece limpo, quase duro; os vales atravessam a Etiópia, o Quénia e a Tanzânia como cicatrizes. E é precisamente aqui que África começa a dividir-se em duas grandes partes - a chamada Placa Núbia e a Placa Somali.

Os geólogos falam em milímetros por ano, mas os dados de satélite mostram que esses milímetros se somam sem piedade. A crosta terrestre não é uma tábua rígida: trabalha, puxa, rasga. Quem fica por lá tempo suficiente esquece por um instante que, em casa, o chão parece tão sossegado.

Um momento particularmente impressionante ocorreu em 2018, perto de Mai Mahiu, no Quénia. Depois de chuvas intensas, abriu-se de repente uma enorme fenda num campo - em alguns pontos com vários metros de largura, profunda, de paredes abruptas. Foi “engolindo” uma estrada aos poucos; postes de eletricidade tombaram; famílias tiveram de abandonar as casas. Muitos pensaram, inicialmente, que era apenas consequência de erosão - chuva a arrastar a terra.

Mas imagens de satélite e medições por GPS mostraram: a fenda segue uma linha tectónica antiquíssima, um roteiro que o continente transporta em si há milhões de anos. A chuva foi apenas o gatilho - a fenda em si faz parte de um plano muito maior da Terra.

Do ponto de vista científico, África é um dos mais espetaculares “experimentos” geológicos da atualidade. Sob o Rift da África Oriental ergue-se uma enorme anomalia de magma no manto superior. Hoje é possível quase “vê-la” com métodos de tomografia, de forma semelhante a um exame de TAC que mostra um órgão. Esta zona quente empurra a crosta para cima, estica-a, até que se torne frágil.

Missões de satélite como a Sentinel e redes de GPS medem movimentos minúsculos com precisão de milímetros. E mostram um padrão claro: a parte oriental de África afasta-se lentamente do resto do continente. Não é teoria nem ficção científica - é um processo em curso, diretamente nos dados.

Como de uma fissura pode nascer um oceano

Quem procura uma imagem para compreender tudo isto pode pensar num pedaço de pão a rasgar-se lentamente. Primeiro surgem linhas finas na massa; depois essas linhas abrem-se em fendas; a certa altura, o pão separa-se sem esforço. Num continente é semelhante - apenas infinitamente mais lento e com forças inimagináveis.

Ao longo do Rift da África Oriental, a Terra está a afastar-se. O magma sobe a partir de baixo, arrefece e forma nova crosta. No Mar Vermelho e no Golfo de Áden já se vê como isto é na sua forma “madura”: aí, os continentes separaram-se tanto que a água do mar pôde entrar. Aquilo que hoje, no leste de África, ainda acontece em terra é a antecâmara de um futuro oceano.

Naturalmente, surge a pergunta: eu - ou os meus filhos - ainda vamos viver isso? A resposta honesta: não, pelo menos não como um oceano feito e largo, com navios de cruzeiro e novas cidades costeiras. A separação decorre a velocidades de poucos milímetros a centímetros por ano. Para a nossa vida, parece frustrantemente lenta, quase impercetível.

E, ainda assim, o processo já hoje está a alterar regiões inteiras. Surgem novos campos vulcânicos; o solo sobe e desce; os percursos da água subterrânea deslocam-se; estradas e linhas de serviço têm de ser ajustadas repetidamente. O futuro não está apenas longe - já se infiltra no quotidiano das pessoas na África Oriental.

Os satélites fornecem uma espécie de diário quase em tempo real deste afastamento. A partir de milhares de imagens, os geofísicos reconhecem onde a superfície se estica, onde afunda, como as fendas se interligam. Alguns movimentos são tão regulares que quase tranquilizam, como um batimento cardíaco constante. Outros surgem na forma de sismos súbitos, que libertam em segundos a “tensão acumulada” de um ano.

Sejamos honestos: ninguém verifica diariamente as atualizações da crosta terrestre num portal de satélite. Mesmo assim, desses discretos valores em milímetros dependem decisões importantes: onde uma cidade pode crescer; que infraestruturas resistem realmente a longo prazo; e em que pontos um chão aparentemente firme poderá parecer muito diferente dentro de algumas décadas.

O que isto significa, de facto, para as pessoas no terreno

Uma geóloga de Adis Abeba contou-me um truque simples que usa em aldeias da região de Afar para tornar este processo gigantesco mais palpável. Pede às crianças que agarrem um pano velho ao meio e que o puxem muito devagar em direções opostas. Ao início parece que não acontece nada; depois surgem pequenas deformações, dobras e, por fim, as primeiras rachas no tecido.

Depois, coloca imagens de satélite da mesma região no chão - antigas e muito recentes. De repente, as crianças percebem: as “dobras” no pano são os seus vales; as finas rachas são as novas fendas que apareceram nos mapas. Assim, milímetros abstratos transformam-se numa sensação física de que a sua terra não é apenas cenário, mas parte de uma Terra viva e em mudança.

As pessoas que vivem nesta zona já lutam com secas, épocas de chuva incertas e solos pobres. O continente a rasgar lentamente funciona como uma ameaça adicional, difícil de compreender. Muitos têm medo de abatimentos súbitos, de sismos, de perderem a sua terra “para a própria Terra”.

Um erro frequente na cobertura mediática: reduzir a história a um espetacular “África está a partir-se!”, sem contar as adaptações silenciosas e persistentes das pessoas. Os pequenos desvios porque uma estrada cedeu. A decisão de construir uma casa alguns metros mais longe de uma fenda estreita. A preocupação que se lê nos rostos, mesmo quando ninguém fala de tectónica de placas.

“O continente não se rasga num dia, mas sentimos que ele trabalha debaixo de nós”, disse-me um pastor no norte do Quénia. “Antes, pensávamos que a Terra era firme. Agora sentimos que ela respira.”

  • Impacto concreto: novas fendas e abatimentos podem tornar campos e caminhos inutilizáveis, secar poços e colocar povoações sob pressão.
  • Ciência em tempo real: dados de satélite e GPS ligam observações locais a modelos globais - um diálogo entre o pastor e a investigadora, mesmo que nunca se encontrem.
  • Oportunidade de preparação: quem conhece os movimentos do solo pode pensar infraestruturas e planeamento urbano a longo prazo, em vez de reagir apenas ao próximo sismo.

Um continente como máquina do tempo do nosso planeta

Quem percebe o que acontece na África Oriental está, no fundo, a olhar para dois tempos ao mesmo tempo: para um passado profundo, quando continentes já se separaram e novos oceanos se abriram; e para um futuro distante, em que um braço estreito do Oceano Índico poderá penetrar profundamente em África, onde hoje ainda pastam bovinos.

Isto também muda a forma como vemos o nosso quotidiano supostamente “estável”. As nossas cidades, as nossas fronteiras, os nossos mapas parecem sólidos, quase definitivos. A zona do Rift africano lembra-nos que tudo isso assenta em algo que se move. A Terra não é o pano de fundo silencioso da nossa história - é uma interveniente. Por vezes discreta, por vezes ruidosa.

Talvez por isso gostemos tanto de partilhar imagens de fendas abertas no solo nas redes sociais: mostram-nos aquilo que preferimos não admitir. Que até o chão em que confiamos é, no fim de contas, apenas um instante - e que vivemos num filme muito lento e muito grande, do qual os satélites já gravam cada cena.

Ideia-chave Detalhe Valor para o leitor
O continente africano está a separar-se de forma real e mensurável Dados de satélite e GPS mostram uma separação lenta entre a Placa Núbia e a Placa Somali, a velocidades de milímetros por ano Compreender que as manchetes atuais não exageram, mas descrevem um processo geológico em curso
A mudança já hoje afeta a vida local Fendas no solo, adaptação de infraestruturas, novos campos vulcânicos e alterações nos percursos da água subterrânea na África Oriental Uma imagem concreta de como a “grande geologia” influencia decisões quotidianas de comunidades e planeadores
Os satélites tornam visível o movimento lento da Terra Imagens de alta resolução e redes de medição acompanham deformações minúsculas da superfície quase em tempo real Visão de como a observação moderna pode melhorar avaliação de riscos, planeamento urbano e compreensão científica

FAQ:

  • Pergunta 1: África está mesmo a partir-se, ou isso é exagero?
  • Resposta 1: A separação é real: a África Oriental move-se sobre uma placa própria, que se afasta lentamente do resto do continente, algo claramente comprovado por satélites e GPS.
  • Pergunta 2: A que velocidade o continente se move, na prática?
  • Resposta 2: Consoante a região, as medições indicam desde poucos milímetros até cerca de um centímetro por ano - o suficiente para, ao longo de milhões de anos, abrir um novo oceano.
  • Pergunta 3: A grande fenda no Quénia é um sinal dessa separação?
  • Resposta 3: Sim: segue uma zona de fraqueza tectónica já existente, mas foi tornada mais visível e intensificada pela chuva e pela erosão - uma mistura de gatilho de curto prazo e processo de longo prazo.
  • Pergunta 4: As pessoas na África Oriental estão, no imediato, mais em risco?
  • Resposta 4: O risco de sismos e movimentos do terreno é maior em zonas de rift; muitas regiões já vivem hoje com essa realidade e adaptam infraestruturas e formas de construção.
  • Pergunta 5: Vamos ver o novo oceano?
  • Resposta 5: Não: a separação completa e a inundação da zona do rift levam milhões de anos, embora já seja possível observar sinais e etapas preliminares.

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