Muitos sonham com a Thermomix; alguns ficam encantados, outros voltam a colocá-la à venda nos classificados ao fim de alguns meses.
Poucos aparelhos de cozinha polarizam tanto como a Thermomix: símbolo de estatuto, máquina “milagrosa”, mas também um rombo permanente no orçamento. Por trás de promessas publicitárias brilhantes há frustrações reais do dia a dia - do modelo de subscrição à pergunta sobre se um robô de 1.400 euros cozinha mesmo melhor do que a panela de ferro fundido da avó.
O mito Thermomix - e a ressaca depois
Há mais de 50 anos que a Vorwerk vende a ideia de que um aparelho consegue cozinhar, pesar, mexer, amassar, cozinhar a vapor e, pelo caminho, salvar o quotidiano. Muitos compradores poupam durante meses ou financiam a Thermomix em prestações. O momento da entrega parece quase um pequeno Natal tecnológico.
Na internet circulam inúmeras histórias de sucesso: pão caseiro, sopas saudáveis, papas para bebés, meal prep em tempo recorde. Mas, depois da euforia inicial, para algumas famílias chega um quotidiano mais desanimador. A Thermomix fica em destaque na bancada - mas nem todos a usam todos os dias.
Para uma parte dos donos, o sonho do “faz-tudo” transforma-se na pergunta: a minha utilização justifica mesmo este preço?
O preço e a subscrição: quando a conveniência fica mesmo cara
Um motivo central para a revenda continua a ser o dinheiro. Com cerca de 1.400 euros de preço de compra, a Thermomix está entre os eletrodomésticos de cozinha mais caros do mercado de massas. Muitos clientes diluem o valor em 12, 24 ou mais prestações mensais.
Cookidoo: aparelho premium com subscrição adicional
Quem quer o máximo de conforto acaba rapidamente no Cookidoo, a plataforma oficial de receitas da Vorwerk. A subscrição custa cerca de 60 euros por ano. À primeira vista, a base de dados oferece milhares de receitas com instruções passo a passo.
- Custo único elevado do aparelho
- Custos contínuos com a subscrição Cookidoo
- Custos adicionais com acessórios e peças de substituição
- Custos de eletricidade com utilização frequente
Muitos compradores assumem, no início, que depois do investimento elevado o acesso às receitas vem incluído. O preço extra da subscrição gera, por isso, frustração repetida - sobretudo quando o aparelho acaba por ser usado apenas de forma esporádica.
Quando um eletrodoméstico atinge o nível de preço e a estrutura de subscrição de um smartphone, os donos perguntam mais depressa: estou mesmo a usar isto o suficiente?
Resultado na cozinha: forte em sopas, mais fraco em estufados
Outro motivo de desilusão: o resultado final nem sempre corresponde às expectativas. Tecnicamente, a Thermomix faz muita coisa, mas não substitui todos os métodos clássicos de cozinhar.
Quando o assado de vaca sofre
Os utilizadores relatam frequentemente resultados muito bons em sopas, purés, dips, húmus ou massa levedada. Torna-se mais problemático em pratos de carne que normalmente cozinham lentamente num tacho de estufar. Carne com fibras longas pode desfazer-se rapidamente no copo rotativo; o molho fica homogéneo, mas menos aromático do que numa cocotte de ferro fundido em lume brando.
Quem comprou a Thermomix sobretudo para estes “pratos de domingo” sente-se enganado e volta ao tacho e à frigideira. A partir daí, alguns perguntam: afinal, para que é que ainda preciso do aparelho?
Espaço, peso, ruído: os obstáculos do dia a dia subestimados
Uma Thermomix raramente fica “decorativa” dentro do armário. É pesada, volumosa e, idealmente, deve estar sempre à mão. Em apartamentos urbanos pequenos, com pouca bancada, isso torna-se rapidamente um problema.
Quando a máquina domina a mesa da cozinha
Se for preciso andar sempre a deslocar o aparelho, aumenta a resistência a ligá-lo “só para fazer uma coisa rápida”. A isto soma-se o ruído: ao triturar alimentos duros ou ao misturar intensamente, muitos modelos atingem um volume que torna chamadas telefónicas ou conversas na cozinha praticamente impossíveis.
Um eletrodoméstico tão barulhento que obriga a “despejar” a cozinha a cada utilização raramente se torna um verdadeiro ajudante do quotidiano.
O medo da TM7: fãs de tecnologia vendem cedo
Um fator próprio do mercado em segunda mão é a estratégia de produto da Vorwerk. Atualmente circulam especulações sobre o próximo modelo, a TM7. Embora faltem dados concretos, muitos utilizadores esperam novas funções, melhor conectividade ou uma utilização mais inteligente.
Quem se considera tecnófilo não quer “ficar para trás com o modelo antigo”. Por isso, vende a TM5 ou TM6 ainda por um preço relativamente alto em segunda mão, para mais tarde investir no novo modelo.
| Motivo | Consequência |
|---|---|
| Rumores sobre a TM7 | Venda antecipada de aparelhos funcionais |
| Medo de desvalorização | Anúncio rápido em plataformas de usados |
| “Fear of missing out” de novas funcionalidades | Pressão para upgrade, mesmo com necessidade duvidosa |
A Thermomix torna-se, assim, um produto que segue mais a lógica dos smartphones: quem vende cedo garante um melhor valor residual. Isso dinamiza o mercado de usados - e, ao mesmo tempo, reforça a sensação de possuir um aparelho que só é “atual” por pouco tempo.
Complexidade no dia a dia: para alguns, o “faz-tudo” vira coletor de pó
Muitos compradores associam a Thermomix à esperança de uma simplificação radical: menos pensar, menos trabalho manual, mais tempo para crianças, trabalho ou lazer. A realidade é mais matizada.
Variedade de programas como obstáculo
O aparelho traz inúmeros modos, temperaturas, velocidades e receitas. Para quem tem pouca experiência, isso pode parecer útil. Para alguns utilizadores, com o tempo, torna-se demasiado: procurar no ecrã, escolher receita, pesar, preparar, limpar.
Depois de cada utilização segue-se uma limpeza bastante rigorosa: desmontar a lâmina, limpar o anel de vedação, lavar bem o interior. Quem à noite quer “só comer qualquer coisa” acaba por pegar na frigideira - que se lava mais depressa.
Quando o esforço organizacional à volta de uma receita parece maior do que cozinhar em si, um eletrodoméstico perde o encanto.
Porque é que o mercado de usados é tão dinâmico
Todos estes fatores - preço, subscrição, necessidade de espaço, ruído, resultados, complexidade e a pressão de novos modelos - conduzem a um mercado de usados surpreendentemente ativo. As plataformas estão cheias de anúncios, muitas vezes com expressões como “quase não foi usada” ou “foi ligada poucas vezes”.
Para uns, a revenda é uma forma de corrigir compras mal pensadas e recuperar liquidez. Para outros, é a porta de entrada no mundo Thermomix por metade do preço. Assim circulam milhares de aparelhos, sem que a marca perca visibilidade.
O que os compradores devem avaliar de forma realista antes de comprar
Simular um teste no quotidiano
Quem está a considerar comprar uma Thermomix - nova ou em segunda mão - deve, antes, simular honestamente como cozinha, na prática. Perguntas úteis:
- Quantas vezes por semana cozinho, de facto, uma refeição quente?
- Tenho tempo para receitas ou preciso de “dez minutos e está a comer”?
- Tenho espaço fixo suficiente para o aparelho ficar sempre montado?
- O ruído incomoda-me muito, por exemplo por causa de teletrabalho ou crianças a dormir?
- Estou disposto a pagar uma subscrição adicional?
Responder a estas perguntas com honestidade reduz o risco de ter de vender o aparelho ao fim de alguns meses.
Alternativas e combinações
Muitos ex-donos de Thermomix passam para multifunções mais baratas, robots de cozinha clássicos ou uma combinação de liquidificadora e frigideira para estufar. Estes setups custam muitas vezes bastante menos, mas cobrem melhor necessidades individuais.
Um cenário possível: em vez de investir 1.400 euros num único aparelho, as famílias investem em vários ajudantes especializados - por exemplo, uma placa de indução com temporizador, um liquidificador potente e uma frigideira pesada de ferro fundido. A soma pode oferecer conveniência semelhante, mas com mais flexibilidade e, muitas vezes, melhores resultados em pratos sensíveis.
Riscos e oportunidades na revenda
Quem se desfaz da Thermomix reduz o prejuízo financeiro, mas assume alguns riscos: garantia remanescente, estado da lâmina, comprovativos de autenticidade. Falsificações são raras, mas acontecem no segmento de preço elevado.
Por outro lado, o mercado de segunda mão oferece oportunidades a compradores com orçamento limitado. Beneficiam de aparelhos tecnicamente em ótimo estado, mas que falharam as expectativas no quotidiano dos antigos donos. Quem conhece as suas necessidades e não precisa do modelo mais recente pode poupar a sério - sem grandes perdas de conforto.
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