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Psicólogos defendem que o sentido de vida, e não a felicidade, é o que prevê a satisfação a longo prazo.

Pessoa escreve num caderno numa mesa de madeira, ao lado de uma taça com laranjas e um ramo de alecrim.

A mulher no café parecia ter tudo aquilo que as pessoas dizem querer. Bom emprego, um casaco bonito, o telemóvel a acender com mensagens. E, no entanto, ficou a olhar para a janela durante muito tempo, mãos à volta da chávena, os olhos noutro sítio qualquer. Quando a amiga chegou, ela riu-se no momento certo, falou do fim de semana, mencionou uma promoção. A conversa tinha todos os destaques certos, todos os “beats” do Instagram.
Depois fez uma pausa e disse, baixinho: “Já não sei para que é que isto tudo serve.”
A mesa ficou em silêncio por um segundo.
Essa frase pequena contém uma pergunta maior do que a felicidade alguma vez contém.

Porque é que o sentido supera discretamente a felicidade

Percorra as redes sociais numa noite qualquer e parece que o objetivo da vida é sentirmo-nos bem o tempo todo. Fotos de praia, brunch, rotinas de cuidados de pele, truques de produtividade. A felicidade é vendida como um produto, agora, com embalagem bonita e garantia limitada.
Ainda assim, psicólogos que acompanham pessoas ao longo de anos continuam a encontrar algo ligeiramente desconfortável. As pessoas que reportam a satisfação de vida mais profunda e mais estável não são as que perseguem sensações agradáveis. São as que sentem que a sua vida, de facto, tem sentido.

Veja-se um dos maiores estudos sobre desenvolvimento na idade adulta, o Estudo de Harvard, que acompanha pessoas há mais de 80 anos. Os participantes mais realizados não eram necessariamente os mais ricos ou os que tinham mais “diversão”. Muitos tinham passado por divórcios, doenças, fracassos de carreira. Alguns admitiram que não foram “felizes”, no sentido de bem-estar imediato, durante longos períodos.
O que se destacou foi outra coisa. Falavam sobre serem úteis para alguém. Fazerem parte de algo maior. Criar um filho, orientar um aluno, cuidar de um parceiro doente, defender uma causa.

Psicólogos como Roy Baumeister puseram números nisto. Quando as pessoas são perguntadas sobre “felicidade”, tendem a mencionar conforto, facilidade, pouco stress, momentos agradáveis. Quando são perguntadas sobre “sentido”, mencionam pertença, propósito, narrativa, tempo passado a ajudar os outros ou a trabalhar em objetivos de longo prazo. A felicidade de curto prazo e o sentido sobrepõem-se, mas não tanto quanto gostamos de pensar.
O sentido, muitas vezes, exige esforço, sacrifício, por vezes dor. Ainda assim, as pessoas que investem aí descrevem as suas vidas como mais coerentes e, ao longo do tempo, mais dignas de serem vividas.

Como construir sentido em vez de perseguir um estado de espírito

Um ponto de partida simples é acompanhar a energia, não a emoção. Durante uma semana, escreva todas as noites três coisas: o que fez nesse dia, o que o drenou, e o que pareceu estranhamente “certo”, mesmo que tenha sido exaustivo. Sem julgamento, sem diário sofisticado. Apenas notas cruas.
Ao fim de alguns dias, começam a surgir padrões. Talvez as conversas com um amigo específico o deixem sempre mais pensativo. Talvez trabalhar num pequeno projeto paralelo faça as horas desaparecerem. Muitas vezes, o sentido esconde-se nessas repetições silenciosas.

Muita gente fica presa porque acha que “encontrar sentido” significa descobrir uma grande vocação. O emprego ideal. A causa perfeita. Essa crença paralisa-o antes sequer de começar. A realidade é muito mais confusa.
O sentido costuma crescer a partir de compromissos pequenos e repetidos: estar presente para um irmão, aprender um ofício, fazer voluntariado duas horas por mês. Por fora, podem parecer coisas banais. Por dentro, mudam a história que conta a si próprio sobre quem é.

A psicóloga Emily Esfahani Smith, que estuda vidas com sentido, coloca a questão assim: “A felicidade vai e vem. O que realmente importa é se a sua vida parece uma boa história que está disposto a continuar a viver.”

  • Mapeie os seus papéis: amigo, parceiro, trabalhador, vizinho, cidadão. Escolha um em que queira aparecer 10% melhor.
  • Escolha um pequeno ritual que apoie esse papel: uma chamada semanal, uma hora marcada para praticar, uma caminhada recorrente com alguém.
  • Ligue-o a um porquê. Escreva uma frase: “Isto importa porque…” e mantenha-a algures visível.
  • Reveja uma vez por mês. Não para se julgar, mas para reparar como a história da sua vida está, lentamente, a mudar.

Viver com sentido quando a vida não é “feliz” de todo

Há um alívio silencioso em perceber que não tem de se sentir bem para estar a viver bem. Pergunte a qualquer pai ou mãe recente a dormir três horas por noite. Pergunte a alguém sentado ao lado de uma cama de hospital. Essas fases podem ser brutais, sem alegria, repetitivas. Ainda assim, muita gente olha para trás e vê nelas alguns dos anos mais significativos da sua vida.
A matemática muda: os seus sentimentos já não são o único marcador.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que, tecnicamente, está “tudo bem”, mas os dias parecem um loop de tarefas sem estrutura. Esse vazio não é sobre falta de prazer. É sobre falta de um fio. Uma direção. Os humanos não querem apenas sentir; querem sentir por uma razão.
Pode estar bem pago, ser elogiado muitas vezes, até ser amado. Sem um sentido de porquê, tudo começa a saber um pouco insosso.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. Ninguém acorda e recita o propósito de vida ao espelho antes do pequeno-almoço. Mesmo pessoas com muito sentido sentem-se perdidas, aborrecidas ou em baixo, às vezes.
O que muda com o sentido não é o tempo do seu humor, mas o clima da sua vida. Sabe para onde está a ir, com quem está a ir, e por quem está a ir. Esse conhecimento nem sempre o faz feliz.
Mas torna-o firme.
E, a longo prazo, essa firmeza é aquilo por que tantos de nós, na verdade, anseiam.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O sentido dura mais do que o estado de espírito Propósito e coerência predizem a satisfação a longo prazo mais do que a felicidade de curto prazo Reenquadra objetivos de vida, afastando-os da perseguição de prazer constante
Começar pequeno e concreto Acompanhar energia, clarificar papéis, criar compromissos pequenos e recorrentes Dá um caminho prático para “mais sentido” sem exigir uma grande mudança de vida
Fases difíceis podem continuar a ser ricas Cuidar, lutar e esforçar-se muitas vezes sabe mal, mas mais tarde é avaliado como altamente significativo Normaliza fases difíceis e reduz a culpa por não se sentir feliz

FAQ:

  • Concentrar-se no sentido significa desistir da felicidade? Não. Pessoas com um sentido forte muitas vezes reportam emoções positivas mais frequentes ao longo do tempo, apenas com menos pressão para se sentirem bem a cada minuto.
  • E se eu não fizer ideia de qual é o meu “propósito”? Ignore a palavra grande. Procure coisas pequenas que pareçam valer a pena: ajudar, criar, aprender, proteger, ligar-se. Deixe o propósito emergir da prática.
  • Um trabalho aborrecido pode continuar a ter sentido? Sim, se o ligar a uma história que importa para si: sustentar uma família, financiar uma paixão, servir uma comunidade, ou ser uma presença estável num mundo caótico.
  • O sentido não é um privilégio de quem tem tempo e dinheiro? A investigação com populações diversas mostra que as pessoas encontram sentido em todo o tipo de circunstâncias, incluindo contextos de baixos rendimentos e de elevado stress, muitas vezes através de relações e contributo.
  • Quanto tempo demora a notar diferença? Muitas pessoas notam uma mudança em poucas semanas ao ligarem deliberadamente as ações diárias a um “porquê” claro, embora uma satisfação de vida mais profunda se construa ao longo de meses e anos.

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