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Psicólogos explicam que procurar sentido na vida traz mais estabilidade a longo prazo do que buscar apenas a felicidade.

Mulher escreve num caderno numa mesa com chá, planta e portátil aberto com calendário.

O tipo no café parece que já percebeu a vida: MacBook, auscultadores caros, ao lado um copo de cappuccino de aveia. Ele percorre ofertas de viagens, clica em “Reservar agora”, recosta-se e sorri, satisfeito. Dez minutos depois, volta a fitar o ecrã, vazio. O sorriso desapareceu, como se alguém tivesse acendido a luz e a tivesse apagado logo a seguir.
Observo estas mini-cenas constantemente: pessoas a encadear momentos de felicidade, como luzes de Natal coloridas que nunca chegam a iluminar totalmente a sala.
E, cada vez mais, psicólogos dizem: talvez estejamos a correr atrás da coisa errada.

Porque é que a felicidade se evapora tão depressa - e o sentido fica

Todos conhecemos esse momento em que chega a encomenda que, há três dias, mandámos vir com entusiasmo. Rasga-se a caixa, experimenta-se o novo gadget, os novos sapatos, e por um instante sentimo-nos como num anúncio. Dois dias depois, aquilo está num canto, e a vida sabe exatamente ao mesmo que antes. Essa pequena onda de felicidade existiu. E desapareceu quase tão depressa como veio.
O sentido funciona de outra maneira. O sentido não rebenta - fica a arder em brasa.

Os psicólogos chamam ao que acontece com a felicidade adaptação hedónica. Habitamo-nos às emoções boas mais depressa do que gostaríamos. Um estudo da psicóloga Sonja Lyubomirsky mostra que até vencedores da lotaria, ao fim de alguns meses, muitas vezes regressam ao seu nível original de satisfação.
Em contraste, as pessoas que classificam a sua vida como “com sentido” relatam uma forma de bem-estar muito mais estável - mesmo quando o quotidiano é mais exigente. Uma mãe, sentada de noite, exausta, ao lado da cama do filho, não dirá que está “feliz”. Mas dirá muitas vezes: “Isto tem significado.”

Do ponto de vista psicológico, o sentido é como um andaime interior. A felicidade é o fogo-de-artifício no céu; o sentido é a fundação debaixo da casa. Quem vive com sentido sente-se integrado em algo maior: em relações, tarefas, valores, histórias que vão para além do próprio dia. E é precisamente esta sensação que nos torna, a longo prazo, mais resistentes ao stress, aos contratempos e às crises internas.
A felicidade pergunta: “Isto sabe-me bem hoje?”
O sentido pergunta: “Isto contribui para a vida que eu quero levar?”

Os quatro pilares do sentido - e como te tornam mais robusto

Uma das investigadoras mais influentes sobre o tema, a psicóloga norte-americana Emily Esfahani Smith, resume o sentido em quatro dimensões: pertença, propósito, narrativa, transcendência. Parece académico, mas é brutalmente próximo da vida real.
Pertença significa ligação verdadeira: pessoas perante as quais não tens de brilhar para seres aceite. Propósito é a sensação de que aquilo que fazes contribui de alguma forma. Narrativa é a história que contas a ti próprio sobre a tua vida. Transcendência são momentos em que, por um instante, te sentes maior do que o teu quotidiano - música, natureza, arte, fé.
Quanto mais conseguimos agarrar estes quatro pontos, mais estável se torna o nosso clima interior.

Vê, por exemplo, a Jana, 34 anos, gestora de projetos numa agência. No papel, tem tudo o que se costuma chamar “felicidade”: bom salário, casa bonita, escapadinhas de cidade, idas a restaurantes. Ainda assim, em terapia, conta que a sua vida lhe parece “um vazio bem organizado”. Muito consumo, pouca direção.
Em comparação, o irmão, Lukas, enfermeiro numa enfermaria sobrelotada. Está muitas vezes cansado; as semanas são cheias e longe de qualquer “vida fácil”. Mesmo assim, descreve-se como “satisfeito com o rumo da minha vida”. Ele vê todos os dias que faz diferença. O trabalho encaixa no seu valor “estar lá para os outros”. Stressante, sim. Sem sentido, não.

O sentido funciona como um sistema imunitário psicológico. Quem se sente inserido em algo maior do que o próprio estado de espírito desmorona-se menos nas crises. Estudos mostram: pessoas com forte perceção de sentido têm menor risco de depressão, atravessam melhor o luto e processam contratempos de forma mais construtiva.
A razão: o sentido dá-nos uma espécie de mapa. Os dias maus deixam de ser um vazio ameaçador e passam a ser um troço de um percurso. A dor pode doer sem desvalorizar a vida inteira. Sejamos honestos: ninguém salta da cama todas as manhãs de entusiasmo. Mas quem sabe porquê se levanta, levanta-se de outra maneira.

Como passar da “caça à felicidade” para a “bússola do sentido”

Um ponto de partida muitas vezes subestimado: não perguntar “O que me faz feliz?”, mas “Em que é que eu quero gastar-me?” Parece radical, mas é uma pergunta surpreendentemente clarificadora. E não precisas de despedir-te nem de fundar uma associação.
Às vezes, o sentido começa com um gesto minúsculo: a decisão de acompanhar, de forma realmente presente, uma pessoa do teu círculo. Uma vez por semana, uma hora em que dás a alguém a tua atenção inteira - sem telemóvel, sem multitarefa.
Estas micro-decisões constroem, pouco a pouco, uma identidade: alguém que não só consome, mas contribui.

Um obstáculo frequente: confundimos sentido com drama. Muita gente acredita que o sentido tem de se sentir sempre grande, épico, quase cinematográfico. Isso cria pressão desnecessária - e, paradoxalmente, ainda mais insatisfação.
O sentido é muitas vezes discreto. Cuidar de uma vizinha idosa. Explicar pacientemente os trabalhos de casa de Matemática. Construir, com calma, um pequeno projeto de que ninguém no Instagram fica a saber. Estas coisas, por fora, parecem aborrecidas; por dentro, sentem-se surpreendentemente sólidas.
Outro erro: definir sentido apenas através do desempenho. Quem se sustenta exclusivamente no sucesso profissional ou na auto-otimização perfeita cai rapidamente na sensação de falhanço quando atravessa uma fase pior.

“O sentido é menos aquilo que tens e mais aquilo que estás disposto a colocar em relação - com os outros, com o mundo, contigo próprio”, disse-me um terapeuta com quem falei sobre o tema.

  • Começa com uma mini-pergunta por dia: “O que fiz hoje que vai para além de mim?” Basta uma frase. Não tem de ser nada heroico.
  • Constrói pequenos rituais em vez de grandes resoluções: uma chamada semanal a alguém que vive sozinho. Um bloco de tempo fixo para algo que investe nos teus valores, não apenas na tua conta.
  • Diz a tua própria história de vida em voz alta: conta a um amigo como passaste de A para B. Muitas vezes, ao contar, aparece um fio condutor que no dia a dia já nem vês.

Porque é que a estabilidade não tem de ser aborrecida - e o sentido não é um luxo

Há uma verdade silenciosa de que se fala pouco: muitas pessoas parecem “felizes” por fora, mas por dentro carregam a sensação de que se vão desfazer à mínima sacudidela. Um comentário crítico, uma separação, a perda do emprego - e a fachada começa a rachar. Quem organiza a vida sobretudo em função de picos de prazer a curto prazo constrói emocionalmente sobre areia.
O sentido encaixa-se na vida de outra forma. Não amortiza as quedas ao ponto de as apagar, mas impede que cada queda se transforme numa crise total de identidade. Pessoas com um “porquê” claro podem estar tristes, inseguras, exaustas, sem se perderem a si mesmas.

O mais interessante: o sentido não é um projeto de luxo para quem procura espiritualidade e tem muito tempo livre. Em tempos incertos, o sentido funciona como um amortecedor da alma. Põe ordem no caos - não porque o mundo se torne objetivamente mais fácil, mas porque a perspetiva muda.
A pergunta muda de “Como é que consigo o maior número possível de emoções boas?” para “Como posso viver de forma a ainda conseguir olhar-me nos olhos quando as emoções boas desaparecerem?”
O sentido nem sempre é agradável, mas é fiável. E talvez seja exatamente isso que desejamos mais profundamente do que qualquer publicidade nos faz acreditar.

Mensagem-chave Detalhe Valor para o leitor
A felicidade é fugaz; o sentido sustenta A adaptação hedónica faz a felicidade esmorecer rapidamente, enquanto o sentido funciona como uma base estável Percebe por que picos de prazer não chegam e ganha uma nova medida de satisfação
O sentido nasce do contributo, não do consumo Quatro dimensões do sentido: pertença, propósito, narrativa, transcendência Consegue avaliar as próprias áreas de vida e trabalhar deliberadamente elementos geradores de sentido
Pequenos gestos constroem um “porquê” forte Micro-ações, rituais e relações conscientes em vez de grandes planos de vida perfeitos Recebe abordagens concretas e aplicáveis ao dia a dia para se tornar, passo a passo, mais estável e resiliente

FAQ:

  • Como descubro o que dá sentido à minha vida? Olha para trás e pergunta: quando senti que estava “no sítio certo” - mesmo que fosse exigente? Onde estás disposto a investir energia sem precisares de recompensa imediata costuma haver um núcleo de sentido.
  • Dá para encontrar sentido num emprego “errado”? Sim. Nem todo o sentido tem de vir do trabalho. Relações, envolvimento comunitário, criatividade ou cuidado podem ser igualmente geradores de sentido, mesmo que o emprego seja apenas “funcional”.
  • Para viver com sentido tenho de estar sempre disponível para os outros? Não. O sentido precisa de equilíbrio. Nasce do contributo, mas também de auto-cuidado honesto. Quem se sacrifica por completo perde, a longo prazo, a força para agir com sentido.
  • E se eu não vir nenhum fio condutor na minha vida neste momento? Acontece a muita gente, sobretudo em fases de transição. Também se pode criar um fio condutor a posteriori, reinterpretando as experiências e perguntando: o que aprendi, o que levo comigo?
  • A caça à felicidade é automaticamente má? Não. Emoções agradáveis fazem parte da vida e ninguém tem de viver como um asceta. Só se torna problemático quando a felicidade é a única bússola - e o sentido fica pelo caminho.

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