A primeira vez que reparas nisso, já vais a meio do café. O mesmo café, a mesma mesa, a mesma cadeira virada para a porta. O portátil abre quase no mesmo ângulo. A mala desliza para o seu canto habitual no chão. Ninguém te disse para te sentares ali, e no entanto o teu corpo foi directo a esse lugar como se o espaço se tivesse, discretamente, reservado em teu nome. Já nem olhas à volta para ver o que está livre.
Depois, um dia, alguém está no “teu” lugar e sentes um pequeno choque de irritação que não consegues bem justificar. É só uma cadeira. Mas não parece “só” isso.
Esse conforto estranho do “lugar do costume”
Observa qualquer escritório em open space às 9:01 e vês um ritual em andamento. As pessoas entram, pousam as malas e aterram quase magneticamente nos mesmos sítios. A mesma secretária, o mesmo lado da mesa de reuniões, a mesma cadeira na sala de pausa. Não há lugares marcados, não há manual de regras - apenas repetição silenciosa.
A sala podia ser reorganizada durante a noite e, por instinto, toda a gente voltaria a orbitar para o seu antigo canto. Não é uma manobra de poder. É memória muscular misturada com algo mais suave.
Pensa na escola. A maioria de nós tinha um “lugar” não oficial muito antes de o professor desenhar um plano. Fila de trás, extremo direito, junto à janela. Se alguém chegasse cedo e se sentasse ali, o dia ficava ligeiramente estranho. Não arruinado - apenas… desalinhado.
O mesmo acontece no autocarro, nos bancos da igreja, na aula de ioga. Uma mulher que entrevistei jurava que só escrevia bem quando se sentava no segundo lugar de trás da biblioteca do bairro. Uma vez, um grupo que estava a fazer exames ocupou a “sua” mesa e ela passou dez minutos inteiros a deambular entre estantes, incapaz de se instalar noutro sítio.
Os psicólogos chamam a isto o “comportamento territorial de conforto”. O nosso cérebro adora molduras familiares, porque eliminam microdecisões. Onde me sento? Onde ponho a mala? De onde vem a luz? Quando essas respostas já são conhecidas, o teu sistema nervoso suspira de alívio.
Muitas vezes confundimos isto com necessidade de controlo. Na realidade, essa escolha repetida é uma forma silenciosa de dizer: aqui, sinto-me suficientemente seguro para parar de varrer a sala com os olhos. O hábito não é sobre dominação. O hábito é sobre baixar o volume do mundo.
Ler o teu lugar como um espelho
Se quiseres compreender-te um pouco melhor, faz uma pequena experiência esta semana. Repara onde te sentas naturalmente em três contextos diferentes: trabalho, casa e um lugar público como um café ou um parque. Não mudes nada ainda. Apenas observa.
À frente, atrás, junto a uma parede, virado para a porta, perto de pessoas ou um pouco de lado. Cada uma destas escolhas diz algo sobre como o teu corpo negocia segurança e estimulação.
Em casa, um homem com quem falei sentava-se sempre à mesa da cozinha com as costas firmemente encostadas à parede, de frente para a entrada. Não por paranoia - por hábito. Quando o terapeuta lhe perguntou, com delicadeza, sobre isso, ele percebeu que, na casa caótica da infância, saber quem entrava e saía das divisões tinha sido a forma de se sentir menos surpreendido.
Outra mulher, a trabalhar num espaço de co-working, escolhia naturalmente uma secretária num canto com plantas à volta. Quando esse lugar estava ocupado, preferia esperar a sentar-se num lugar central. Não era sobre “possuir” o canto. Era sobre suavizar as arestas do dia.
Quando começas a ver padrões nos teus “lugares do costume”, surge uma história mais clara. Estar perto de uma saída pode apontar para uma ansiedade de baixo nível que nunca nomeaste. Sentar-te junto a uma janela pode significar que precisas de válvulas de escape visuais quando a mente se sente encurralada. Escolher o meio da sala, rodeado de pessoas, pode ter menos a ver com estatuto e mais com precisar de um amortecedor contra o silêncio.
Isto não significa analisar em excesso cada cadeira. Significa apenas reconhecer que o teu corpo tem negociado o teu conforto muito antes de o teu cérebro pôr isso em palavras. O teu lugar preferido é, muitas vezes, a obra-prima silenciosa do teu sistema nervoso.
Alargar gentilmente a tua zona de conforto
Há uma forma simples e nada dramática de explorar isto sem transformaress a tua vida numa experiência. Uma vez por semana, escolhe um lugar onde te sentas sempre no mesmo sítio e muda apenas um passo. Não para o lado oposto do universo. Só um passo.
Se te sentas sempre encostado à parede, muda para um lugar uma cadeira mais perto do centro. Se escolhes sempre a mesa do canto, experimenta a que está mesmo ao lado. Deixa o corpo sentir a mudança e depois faz um ponto da situação: mais tenso, mais desperto, ou perfeitamente bem?
Isto não é sobre te forçares a “ultrapassar” ou envergonhar os teus padrões. O conforto não é o inimigo. A armadilha está em dizeres a ti próprio que o teu lugar habitual é uma regra inquebrável, quando na verdade é apenas uma preferência forte.
Já todos passámos por isso: aquele momento em que alguém se senta no “nosso” lugar e nós agimos como se o universo tivesse feito um ataque pessoal. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. A maioria das pessoas adapta-se, resmunga em silêncio durante dois minutos e depois esquece, assim que o café chega à mesa.
Às vezes, a pergunta mais honesta que podes fazer a ti próprio é: “Preciso mesmo deste lugar, ou só preciso de me sentir bem onde quer que aterre hoje?”
- Muda uma cadeira em vez de virares do avesso toda a disposição da tua vida.
- Repara na tua primeira reacção e depois na reacção do teu corpo cinco minutos mais tarde.
- Usa os “lugares roubados” como treino de microflexibilidade, não como prova de que o dia ficou estragado.
- Fala sobre isto com um amigo; histórias sobre “o meu lugar” são estranhamente universais e desarmantes.
- Mantém os lugares que realmente te acalmam e alivia o aperto sobre os que apenas alimentam medos antigos.
Quando o teu “lugar do costume” se torna uma escolha suave
Há algo quase terno em perceber que a tua insistência esquisita na mesma cadeira do café tem menos a ver com seres controlador e mais com autoapaziguamento. O objectivo não é sentares-te em todo o lado, sempre, como um super-herói hiperadaptável. O objectivo é simplesmente saber a diferença entre uma escolha e uma compulsão.
Quando consegues dizer “gosto daquele lugar, mas sobrevivo a este”, algo em ti relaxa.
Começas a ver os espaços de forma diferente. Não como campos de batalha onde tens de defender um território invisível, mas como paisagens que podes explorar conforme a tua energia nesse dia. Talvez continues a escolher o teu canto favorito na maior parte do tempo. Talvez, às vezes, te surpreendas e te sentes mesmo no meio, juntes-te a outra mesa, ou fiques algum tempo junto à janela.
A cadeira deixa de ser uma afirmação e passa a ser uma ferramenta.
Da próxima vez que notares que estás a ir automaticamente para “o teu lugar”, pára meio segundo. Sorri ao modo como o teu corpo se lembra. Depois decide, de novo, se manténs o ritual ou se o reescreves um pouco. Essa decisão pequena, quase invisível, é o ponto em que o conforto deixa de encolher o teu mundo e começa, discretamente, a expandi-lo. E é aí que o teu lugar - seja onde for - finalmente parece teu, pelas razões certas.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Conforto acima do controlo | Repetir o mesmo lugar é muitas vezes um hábito de segurança, não uma manobra de poder | Reduz o autojulgamento e suaviza a ansiedade associada ao comportamento “territorial” |
| Observa os teus padrões | Repara na posição na sala: parede, porta, janela, centro, margem | Transforma hábitos automáticos em pistas sobre as tuas necessidades |
| Micro-experiências | Muda uma cadeira de cada vez e reflecte sobre como o teu corpo se sente | Expande gentilmente a zona de conforto sem mudanças esmagadoras |
FAQ:
- Pergunta 1: Sentar-me sempre no mesmo sítio significa que sou controlador?
Resposta 1
Na maioria das vezes, não. Normalmente significa que encontraste um lugar previsível onde o teu corpo relaxa, para que o teu cérebro não tenha de procurar ameaças ou estímulos. É conforto primeiro, não dominação.Pergunta 2: É pouco saudável sentir-me irritado quando alguém ocupa o “meu” lugar?
Resposta 2
Esse pico de irritação é normal. O que importa é o que fazes com ele: respira, adapta-te e repara como a sensação desaparece rapidamente assim que te instalas noutro sítio.Pergunta 3: Mudar o meu lugar habitual pode mesmo mudar alguma coisa na minha vida?
Resposta 3
Por si só, não vai transformar tudo. Mas estas pequenas rupturas treinam o teu sistema nervoso a tolerar novidade, o que pode transbordar para áreas maiores: reuniões, situações sociais, tomada de decisões.Pergunta 4: E se eu ficar ansioso em qualquer lugar novo?
Resposta 4
Começa com mudanças muito pequenas e por períodos curtos. Senta-te num lugar novo durante dez minutos e depois volta, se precisares. Se a ansiedade for intensa, pode valer a pena explorar isso com um terapeuta.Pergunta 5: Devo obrigar-me a deixar de ter um “lugar do costume”?
Resposta 5
Não tens de o fazer. Mantém os lugares que realmente te acalmam e te apoiam. O objectivo é flexibilidade: tu escolhes a cadeira; a cadeira não escolhe, silenciosamente, o teu dia inteiro.
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